{"id":453,"date":"2021-05-29T23:11:27","date_gmt":"2021-05-30T02:11:27","guid":{"rendered":"http:\/\/redmarketing.com.br\/?p=453"},"modified":"2021-06-11T11:06:51","modified_gmt":"2021-06-11T14:06:51","slug":"a-publicidade-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redmarketing.com.br\/?p=453","title":{"rendered":"A publicidade perdida"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-yxUqP6Yewi4\/YFTg_48aEeI\/AAAAAAAAWgw\/UkfY91UULUg2OE8xGN71UtI2Boi85z_IACLcBGAsYHQ\/s2048\/M2.JPG%2B2.JPG\"><\/p>\n<p>Tenho ficado assustado com os rumos da publicidade ultimamente. A meu ver, a publicidade brasileira, que teve grande protagonismo em n\u00edvel mundial desde os anos 80 do s\u00e9culo passado at\u00e9 os anos 2010, est\u00e1 perdida.<\/p>\n<p align=\"left\">N\u00e3o se trata de falta de t\u00e9cnica, ou de sofistica\u00e7\u00e3o, ou mesmo de racionalidade custo-benef\u00edcio dos investimentos. Se trata de falta de \u00e9tica. A publicidade brasileira, assim como o pa\u00eds, perdeu-se em termos de car\u00e1ter.<\/p>\n<p align=\"left\">Vou referir aqui, como exemplos da falta de \u00e9tica da publicidade, algumas campanhas que voc\u00ea j\u00e1 deve ter visto. Uma \u00e9 a campanha de alistamento \u00e0s FFAA, paga pelo Minist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica. Outra \u00e9 uma campanha recente do MEC que divulga a exist\u00eancia de uma cartilha de orienta\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as na volta \u00e0s aulas. Por fim, vou tratar de um anunciante do setor privado.<\/p>\n<p align=\"left\"><b>Propaganda de Guerra<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">A campanha do alistamento militar, extremamente ostensiva, ultrapassa em muito os objetivos anunciados na pe\u00e7a, ou seja, o de fazer com que jovens que est\u00e3o fazendo 18 anos compare\u00e7am numa unidade de recrutamento ou usem o seu celular para alistarem-se. A campanha parece buscar na verdade querer comprar prote\u00e7\u00e3o \u00e0s FFAA junto aos meios de comunica\u00e7\u00e3o, de um lado, e potencializar uma imagem positiva e a sua presen\u00e7a di\u00e1ria junto \u00e0 sociedade, de outro. (Ver aqui:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=v4F6aknZzsE\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=v4F6aknZzsE<\/u><\/a>&nbsp;).<\/p>\n<p align=\"left\">Na l\u00f3gica da propaganda de guerra desencadeada pelas FFAA, em especial, e pelas for\u00e7as que elegeram Bolsonaro, a campanha publicit\u00e1ria em curso neste momento se enquadra na linha de \u201cpropaganda cinza\u201d, ou seja, aquela que se dirige ao setor intermedi\u00e1rio da zona de conflito e busca atra\u00ed-lo para um dos lados. O p\u00fablico-alvo, no caso, \u00e9 o povo brasileiro.<\/p>\n<p align=\"left\">A publicidade brasileira nunca foi muito rigorosa em rela\u00e7\u00e3o a sua \u201clinha criativa\u201d. Diante de qualquer aceno de um cliente poderoso, desdobrou-se em mesuras e genuflex\u00f5es. Quando Lula chegou ao poder, no dia seguinte as grandes ag\u00eancias que haviam torcido e atuado contra o ex-metal\u00fargico falavam em solidariedade, justi\u00e7a social e direitos em sua linguagem publicit\u00e1ria. Hoje, entretanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 disso que se trata. N\u00e3o \u00e9 mais uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o com um novo cliente no mercado. O que as grandes ag\u00eancias est\u00e3o fazendo \u00e9 trabalhar conscientemente por um projeto autorit\u00e1rio, construindo a sua defesa nos m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n<p align=\"left\"><b>A volta dos que n\u00e3o foram<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">O comercial do alistamento militar fala por si s\u00f3. Ele \u00e9 simp\u00e1tico, mostra as FFAA como um ambiente agrad\u00e1vel. Nada perto da imagem do recruta sendo &#8220;disciplinado\u201d. Ou seja, \u00e9 um comercial que tamb\u00e9m &#8211; e at\u00e9 principalmente- fala pra fora, fala para a sociedade brasileira tentando dizer: \u201colha, n\u00f3s do Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica somos caras legais, somos o alicerce da na\u00e7\u00e3o\u201d. A ideia que a pe\u00e7a publicit\u00e1ria passa \u00e9 a de projetar as FFAA como dirigentes da Na\u00e7\u00e3o. O que de fato est\u00e1 acontecendo, seja atrav\u00e9s do \u201cmau militar\u201d na presid\u00eancia, seja atrav\u00e9s do vice Hamilton Mour\u00e3o, ou dos milhares de militares colocados em postos chaves no governo.<\/p>\n<p align=\"left\">Pode dar errado? Claro que pode. Mas o objetivo da pe\u00e7a publicit\u00e1ria \u00e9 este: construir uma imagem positiva das FFAA e abrir espa\u00e7o na sociedade para a ideia de que as FFAA devem \u201cmandar em tudo\u201d. Al\u00e9m disso, pelo volume de investimentos aplicados, atrair os ve\u00edculos tradicionais e a opini\u00e3o p\u00fablica para esta estrat\u00e9gia ou, pelo menos, para uma posi\u00e7\u00e3o de neutralidade.<\/p>\n<p align=\"left\">Tem nexo? Infelizmente tem.<\/p>\n<p align=\"left\"><b>A responsabiliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">Outra abordagem muito usada pela publicidade nos \u00faltimos anos \u00e9 a da responsabiliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo pelos pr\u00f3prios resultados. Assim, se voc\u00ea est\u00e1 desempregado, a culpa \u00e9 sua. Com certeza, voc\u00ea n\u00e3o foi competente o suficiente. Quer um novo emprego? Esque\u00e7a! Torne-se um empreendedor. \u00c9 uma narrativa presente n\u00e3o s\u00f3 na publicidade, mas tamb\u00e9m nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, nos cultos, nas igrejas, enfim, em toda a sociedade.<\/p>\n<p align=\"left\">Esta ideologia, trazida para o ambiente de crise e de pandemia, gerou pe\u00e7as publicit\u00e1rias em 2020 que, vistas hoje, parecem loucura. Um exemplo \u00e9 uma campanha do Bradesco ( ver aqui:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qxSRpW1kk-s\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qxSRpW1kk-s<\/u><\/a>&nbsp;) ( e aqui:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CIytl3hlOzs\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CIytl3hlOzs<\/u><\/a>&nbsp;) do primeiro semestre do ano passado. A campanha \u00e9 uma vers\u00e3o publicit\u00e1ria competente do discurso do presidente Bolsonaro sobre a pandemia, e joga sobre os ombros dos indiv\u00edduos a responsabilidade por resistir e se reinventar.<\/p>\n<p align=\"left\">Outro exemplo, ainda mais emblem\u00e1tico, \u00e9 um comercial do MEC (aqui:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rxfIhlFNicA\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rxfIhlFNicA<\/u><\/a>&nbsp;). A propaganda divulga um Guia de Implementa\u00e7\u00e3o de Protocolos de Retorno \u00e0s Atividades Presenciais nas Escolas de Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica. Durante um minuto, o MEC e o governo federal ficam estabelecendo regras do que Luana (a estudante do ensino b\u00e1sico) deve fazer para ficar segura. Causa espanto o CONAR n\u00e3o ter interferido para impedir a divulga\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a. Ela \u00e9 criminosa. Coloca nos ombros das crian\u00e7as a responsabilidade de enfrentar o Coronav\u00edrus.<\/p>\n<p align=\"left\"><b>O que fazer<\/b><\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 muito pouco o que podemos fazer a respeito, mas buscar uma conscientiza\u00e7\u00e3o do que se passa pode ser um primeiro passo para construirmos uma cr\u00edtica consistente a estes descaminhos \u00e9ticos da cria\u00e7\u00e3o publicit\u00e1ria brasileira. Houve um tempo em que a publicidade, ainda que seja um neg\u00f3cio e como tal visasse o lucro, buscava se inspirar em valores positivos. Compromisso com a verdade, defesa da liberdade, respeito \u00e0 democracia, defesa da vida, da solidariedade, do humanismo embalavam uma escola criativa que vendia e encantava os consumidores. Havia \u00e9tica na publicidade.<\/p>\n<p align=\"left\">Hoje, podemos at\u00e9 nos enganar e nos deixar emocionar durante um tempo diante de pe\u00e7as como essa, do Bradesco (aqui&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xlbnfU3bpJ0\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=xlbnfU3bpJ0<\/u><\/a>&nbsp;), mas apenas para, depois de alguns minutos de distanciamento e reflex\u00e3o chegarmos \u00e0 conclus\u00e3o de que a propaganda natalina do banco que mais teve lucros na pandemia, de fato, por tr\u00e1s do discurso da esperan\u00e7a, divulga a naturaliza\u00e7\u00e3o das mortes pela COVID-19. \u00c9 como se viesse nos dizer: Afinal, \u201ctodos n\u00f3s vamos morrer um dia\u201d, n\u00e3o \u00e9 verdade? \/\/\/<\/p>\n<p align=\"left\"><i>* Paulo Cezar da Rosa, jornalista e publicit\u00e1rio, diretor da Veraz Red Marketing e da Veraz Comunica\u00e7\u00e3o.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho ficado assustado com os rumos da publicidade ultimamente. 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